LIVRE - Tertúlia Virtual (15/07/2009)
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Morávamos numa pequena cidade do interior. Hoje é uma "metrópole"... Criança ainda, ansioso por chegar em casa depois das aulas, eu cortava caminho entrando diretamente no seu imenso quintal, entre mangueiras, goiabeiras, laranjeiras, jabuticabeiras... Paralelo ao fundo dos terrenos separando as duas ruas principais tinha um riacho de águas límpidas que chamávamos “córrego”. Canalizado pelo “progresso” passou a se chamar “avenida”.
Foi ali que certo dia eu encontrei caído junto a um arbusto um bonito sabiá-laranjeira. Aproximei-me devagar. Ainda respirava, seu coraçãozinho batia célere. Ferido gravemente numa das asas, ele não se incomodou quando o envolvi cuidadosamente no guardanapo onde embrulhava o lanche da escola...
Todo dia, eu vinha rápido da escola, brincava com ele, tentava ensiná-lo a cantar, coisa que não sabia fazer ou tinha desaprendido.
Tornara-se meu amigo, era isso o que passava pelo meu espírito de menino de sete, oito anos. Despreocupado quanto a sua possível fuga, improvisei-lhe um bom abrigo numa parede de tijolos vermelhos do quintal próximo à cozinha da casa.
Entretanto, uns dez dias depois veio a grande decepção: quando me aproximei dele, o “meu amigo” voou célere, elegante, "cheio de saúde" para o muro mais próximo. Cantou timidamente, quem sabe traduzindo em sua linguagem um "adeus, muito obrigado". E alçou vôo para o alto das árvores vizinhas.
Fiquei muito triste por uns dias. Achei aquilo uma grande ingratidão. Com o passar do tempo compreendi que, na verdade, ele não queria nada daquilo que eu lhe proporcionava. Desejava mesmo era viver entre os seus semelhantes. Enfim, ser um ser LIVRE.
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